

Nutrir o Corpo, Alimentar a Essência
A relação com a comida é um dos vínculos mais íntimos que carregamos. Vai muito além de calorias ou modas passageiras; é, antes de tudo, um exercício de escuta interna. É parar, observar e entender, com honestidade, quais alimentos realmente nos nutrem no corpo e na coração. Eu fui uma criança muito ligada à terra. Cresci no interior, onde os cavalos eram parte da paisagem, os cachorros me acompanhavam por todos os cantos e o barulho das cachoeiras era música do dia a dia. Meu quintal parecia não ter fim, e o pomar era um presente, abacates, laranjas, limões, pêssegos. Mas o verdadeiro centro da casa era o fogão a lenha. Eu voltava da escola e encontrava aquele cheiro de terra misturado ao calor da brasa, onde o feijão cozinhava lentamente. É ali que está uma das minhas memórias mais importantes: observar minha mãe fazendo pão caseiro. O cuidado com a massa, o cheiro que tomava a casa quando as formas entravam no forno… E sempre ficava um bocadinho da massa do pãozinho separado só para nós, para fazermos bolinhos esticados meus irmãos e eu adorávamos. Até hoje, nunca comi um pão (ou um bolinho) melhor. Aquilo aquecia meu corpo, mas principalmente o meu coração. Sempre enxerguei a comida como um abraço. Essa verdade voltou à tona quando viajei sozinha para fora do Brasil pela primeira vez. Eu havia passado muitas horas no avião, desembarcado num lugar onde tudo era novo e o idioma parecia distante. No fim do dia, cansada e um pouco perdida, entrei num pequeno restaurante perto do hotel. O garçom me trouxe uma sopa quente, simples, fumegando. Quando o cheiro chegou, senti um alívio imediato, como se alguém tivesse colocado um cobertor sobre mim. Era familiar, mesmo longe de casa. Todos carregamos memórias assim. Os alimentos marcam encontros, embalando conversas, risadas, abraços. Dão cor às festas, fortalecem laços e confortam quando estamos tristes ou nostálgicos. Existe magia nisso: desde os primeiros humanos, a comida aproxima, sustenta, une. E, além de tudo isso, continua sendo o combustível que nos dá força, saúde e vitalidade. Durante muito tempo, essa sabedoria natural bastava. Comer era um ato intuitivo, até decidirmos transformar alimento em conta matemática. Começamos a pesar, medir, calcular… e a conexão com o corpo foi se apagando. Paramos de ouvir o que ele realmente pede. Quando resgatamos nossos sentidos, voltamos a encontrar nossas necessidades verdadeiras. E comer passa a ter mais propósito, leveza, consciência e prazer. A Escuta do Corpo Voltar um passo não significa ignorar a nutrição. É recuperar uma sensibilidade esquecida. Nascemos sabendo o que precisamos comer, exatamente como os animais que seguem seus instintos. Essa percepção aparece claramente em uma criança pequena, mas se perde quando começamos a agradar expectativas externas raspar o prato, comer sem fome, seguir horários rígidos. E aquilo que aprendemos na infância se fixa como verdade. Por isso, muitas vezes compensamos o cansaço com um doce, como se estivéssemos alimentando partes nossas que ficaram esperando por algo. A comida vira emoção. O relacionamento que temos com o alimento se forma cedo e nos acompanha pela vida. E, como qualquer relação, pode ser tranquila ou difícil, próxima ou distante. Quando as sensações do corpo não encontram espaço, cedemos às regras, transformamos comida em números e criamos uma batalha dentro de nós mesmos. Nesse cenário, perder o controle é fácil. Desintoxicar o paladar de excessos ou deixar uma rotina rígida de dietas pode ser desafiador, mas extremamente libertador. Voltar a comer intuitivamente é como superar um trauma: começamos devagar, colocando só a ponta do pé nessa água gelada, até entender que ela não ameaça. A rotina moderna, porém, rouba nossa atenção. Vivemos acelerados, distraídos, sempre com a mente voltada para fora. Por isso, a atenção plena é tão importante. Ela é amiga da intuição. Quando comemos presentes no momento, percebemos o sabor, a textura, o aroma, a beleza do prato. Comemos menos e melhor. Evitamos o impulso de devorar um bolo inteiro quando um pedaço bastaria. Comemos por ansiedade, carência, insegurança, tédio, frustração, solidão, cansaço, medo… Mas comer para encobrir emoções nunca resolve o que dói. Funciona por alguns minutos, depois vira culpa. E a culpa nos joga num ciclo de restrição e excesso. Para sair dele, precisamos fortalecer nossa capacidade de lidar com o que sentimos antes de tentar mudar o que comemos. O segredo não é novo: comida de verdade. Aquilo que encontramos na feira, que vem da terra, das mãos de quem planta. O que nossas avós e bisavós comiam, os alimentos da estação, colhidos no ponto certo. Pode parecer trabalhoso no início, mas logo percebemos que viver assim é mais simples do que parece. O bem-estar que vem junto é tão grande que o peso do corpo perde importância. O Ayurveda traz uma visão interessante: a comida carrega potência de vida. “Sempre que eu me alimento, estou nutrindo meus sonhos, meus dons, meus talentos. E quando alimento alguém que amo, estou nutrindo o que faz parte de algo maior.” Cada pessoa tem seu próprio modo de comer. O agni — o fogo digestivo — mostra isso. Ele guia a fome, a saciedade, o processo de digestão. No Ayurveda, os seis sabores (doce, ácido, picante, amargo, salgado e adstringente) influenciam corpo e mente de formas únicas. Quando observamos o corpo, entendemos nossos limites e necessidades. Comer o suficiente é um gesto de respeito. Parar de beliscar o dia inteiro também. E seguir nossas vontades, sem culpa, é parte da inteligência alimentar. Não há problema algum em passar um mês amando maçã e no outro desejar abacaxi. Meditar, mover o corpo, respirar, tudo isso ajuda na transformação. Comida é nutrição, mas também é poesia. É parte da nossa história. O ato de comer começa pelos sentidos: ver, ouvir, sentir o cheiro, tocar. É um encontro, e encontros merecem ser celebrados. Vale colocar uma toalha bonita sobre a mesa, flores num vasinho e uma música suave ao fundo. Vale sentar com quem amamos e saborear cada momento como se fosse único. Porque ele é.
Simone Camargo
Simples , Claro. Essencial
Luz para o agora